Wednesday, January 10, 2007

Onde foi que te perdi…a tua essência, o teu mar…

A tua coragem e o teu saber

A tua mágoa enfim repousou

No silencio terno de um abraço.

Não te encontrei, entretanto.

Não te abracei e não te disse

Não te olhei, não te falei.

Apenas a passagem por entre o tempo.

Apenas as incertezas esguias

Que percorrem o vento.

Nada amainou.

Nada foi, de si, efémero.

Nada partiu num sem rumo ardente.

Nada quis ser nem ter o que havia…

Porém, permanecemos aqui.

Sem esperanças, sem meios de recobro.

Sem alianças, sem medos

Quis saber de ti…



 

Friday, June 09, 2006

Ebriedade

Qual ebriedade, qual tremor…
Qual felicidade, qual momento de alegria,
Se a vida não dura mais que um dia.
Qual alívio, qual dor,
Quais olhos fechados de quem espreita pela janela,
Qual amor, qual respeito,
Quando apenas se deseja respirar fundo.
Deixam-se os olhos fechar,
Deixa-se o mundo abrir…
Levar-me para o abismo
Entre o que sou e o que quero ser.
A ebriedade permite-me os sonhos,
Permite-me a vontade
Permite-me a sensibilidade de cada momento,
O leve toque de quando me invade o pensamento.
Permite-me assistir à cor da liberdade,
Ao seu brilho e à sua simultânea aspereza.
Ao seu bater.
Connosco estão os que nos escutam,
Na sóbria ebriedade dos dias que por nós passam
E nos fogem por entre os dedos
Na verdadeira ampulheta da vida de cada um.
Será sempre esse poder, essa memória,
Que o tempo deixará ficar retida
No denso pó da eternidade.

Saturday, May 20, 2006

Um dia

Um dia, percorreremos esse caminho idílico
Um dia, faremos dos dias
O nosso sonho.
Um dia, contemplaremos as águas do mesmo rio.
Um dia, veremos os peixes a saltar
E a mergulhar de novo,
Percorrendo o mesmo caminho.
Um dia, subiremos à mesma árvore
Colheremos as mesmas maçãs.
Um dia, nadaremos no mesmo charco
Que a chuva criou por si.
Um dia…
Um dia, conseguirei ver-te de novo
Um dia, aliviarei esta angústia,
Este ardor que não me abandona.
Um dia, explicarei a cada gota de chuva,
O quanto gosto de ti.
A cada cor associarei um dos sentimentos que agora me invadem.
A cada gesto, um episódio do passado.
E tudo, porque o nosso sangue
Continua a ser o mesmo.
Porque este pulsar que eu sinto
É o mesmo que sentes agora.
Estejas tu onde estiveres.
Virás sempre abraçar-me.

Insónia

A ti te dedico, eterna insónia,
Estas palavras, de quem quer dormir
E o abismo desta mente
Não deixa.
Porquê este pensar,
Porquê este mexer e remexer,
Porquê estas idas e voltas,
Neste infernal labirinto…
Neste caminho que só ao devaneio
Me traz.
Insónia…
Passarei a atribuir o teu nome às minhas noites.
Que são longas.
Dar conta que o tempo passa,
Que brinca comigo,
Que me transporta pelo vazio,
Mostrando-me ao que de dia sou cega.
Seja grande a pressa de viver,
Talvez…
Não seja suficientemente calculista
Para que o cansaço domine as minhas noites.
Deixa-me morrer nos braços da noite,
Deixa-me só fechar os olhos,
Na eterna efemeridade de um só momento.
Para que na noite seguinte,
Tenha força para te enfrentar de novo.

Monday, May 01, 2006

Fazer o tempo voltar para trás


Se o tempo não voltar para trás, não saberemos nunca como conseguir ultrapassar tudo isto que nos provoca tanto medo. É triste, mas é a única verdade que me resta. Tentar encontrar o optimismo necessário para me demover da atitude de possuir este pensamento no preenchimento da minha pobre mente, parece-me algo inalcançável, de tão difícil…
Tento, até, disponibilizar os meus ouvidos para ouvir uma faixa da qual não gosto nem um pouco…, para testar até que ponto conseguirei ir para mudar a minha opinião…, a verdade é que, por mais vezes que a oiça, a minha opinião acerca dela permanece imutável… Serei assim tão incapaz e dotada de tão grande impotência perante tão banais coisas? Assim, pelo menos, consigo medir o que me falta para conseguir alcançar tal optimismo…, é a distância daqui ali, talvez, dirão as vozes mais insensíveis, mas a mim, parece-me a distância equivalente à profundidade do eterno abismo.
Não me culpo por isso…, são as circunstâncias que me provocam tal estado de espírito…, tento encontrar um ponto de conexão entre mim e o meu passado e encontro…, tento procurar um ponto de conexão entre o meu passado e o presente e o grau de dificuldade aumenta a cada minuto…
A morte que nos rouba aqueles que mais amamos…, a inércia que se adquire a cada dia de sofrimento…, parecem ser eternos, pelo menos penso neles até ir na conversa do sono…, a minha mente tende a deambular pelas ruas desertas de não sei que tempo…
A verdade é esta… Tentar agir em conformidade com o que penso, com os meus próprios princípios não é tarefa fácil…, mas o mundo é realmente imperfeito e resta-nos poisar as nossas mentes na perfeição do que outrora nos fez feliz…, ou talvez, deixar repousar as nossas mentes no que um dia nos possa vir a fazer felizes… Por mais difícil que isso possa ser, não nos resta outra hipótese…, há, realmente, uma enorme necessidade de construção da pessoa, uma necessidade inteiramente intrínseca de tentarmos cada vez mais abarcar o mundo e as suas coisas em nós, para que a cada dia sejamos cada vez mais completos e saibamos dar respostas às mais complexas questões.
O tempo não volta, de facto, para trás…, saibamos atribuir a preciosidade de cada momento a nós mesmos e deixemos a nossa mente flutuar perante todos os nossos dias e os seus acontecimentos… Deixemos, tal como na verdadeira escrita, tudo o que à nossa personalidade diz respeito, fluir por entre as verdadeiras acções de quem se sente.

Saturday, April 29, 2006

Ser perturbador de sonhos

Não posso...
Não existo...
Sentir-me, já não consigo.
Já não sinto as asas que me deram para voar.
Já não sinto o corpo,
Só o simples levitar da alma.
Só o simples agarrar-me a este chão,
Ser apoderada por aquele silêncio,
De quando éramos só tu e eu...
De quando o meu olhar era o teu.
Agora?
Agora já não somos nada
Nada mais do que dois corpos errantes,
Duas almas soltas,
Ainda que pensemos que não.
Dois silêncios escuros,
Quatro olhos de chuva...
A chuva...
Como é bom quando queremos chorar
E o céu nos acompanha.
Como outrora foi
Quando te disse palavras
Que agora te já não sei dizer,
Ser perturbador de sonhos.

A ti, ser perturbador de sonhos.

Friday, April 14, 2006

Fingir que está tudo bem

Fingir que está tudo bem: o corpo rasgado e vestido com roupa passada a ferro, rastos de chamas dentro do corpo, gritos desesperados sob as conversas: fingir que está tudo bem: olhas-me e só tu sabes: na rua onde os nossos olhares se encontram é noite: as pessoas não imaginam: são tão ridículas as pessoas, tão desprezíveis: as pessoas falam e não imaginam: nós olhamo-nos: fingir que está tudo bem: o sangue a ferver sob a pele igual aos dias antes de tudo, tempestades de medo nos lábios a sorrir: será que vou morrer?, pergunto dentro de mim: será que vou morrer?, olhas-me e só tu sabes: ferros em brasa, fogo, silêncio e chuva que não se pode dizer: amor e morte: fingir que está tudo bem: ter de sorrir: um oceano que nos queima, um incêndio que nos afoga.
O tempo, subitamente solto pelas ruas e pelos dias,como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo,mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer. Eram os teus olhos, labirintos de água, terra, fogo, ar, que eu amava quando imaginava que amava. era a tua voz que dizia as palavras da vida. Era o teu rosto. Era a tua pele. Antes de te conhecer, existias nas árvores e nos montes e nas nuvens que olhava ao fim da tarde. Muito longe de mim, dentro de mim, eras tu a claridade.

José Luís Peixoto
Mas também quem se importa contigo?
Mas também quem é que reconhece o teu valor?
E ja te questionaste se estas perguntas serão verdadeiramente válidas perante uma pessoa como tu, despojada de todos e quaisquer valores?
Correspondes ao erro crasso da Natureza,
És uma peça com defeito.
Culpa tua. Não teimes em culpar os teus progenitores, pois eles fizeram o melhor que sabiam.
Tu é que és assim.
Não vale a pena tentares ser melhor, pois serás sempre aquilo que és.
Mascára-te. Talvez consigas. Mas tudo o que disseres terá a tua marca, tudo o que estiver ligado a ti, continuará a estar e terá a tua impressão digital.
Mesmo assim, imploro-te para que não mudes.
Não mudes, porque gosto de ti assim.
Não reconheço o teu valor, mas gosto de ti, só porque quando te observo vejo erros que não cometi. Se os tivesse cometido, ou se ainda os cometesse, ou se um dia os cometer, talvez te deteste, pois vejo em ti, a minha parte negra.
Por enquanto, vais servindo para me sentir bem e para me orgulhar de mim, já que, pelo menos agora, não falho tantas vezes quanto tu.
Gosto de ti.
E a mente humana tem destas coisas...
Em que pensas tu,
Quando acreditas
Que o teu passado é nada
Comparado com aquilo que pensas
Que podes viver?

Tuesday, April 11, 2006

A quem olha por mim todos os dias

Mas porque será que num dia como este, em que até os pobres dos pássaros vivem felizes, a saltar de ramo em ramo daquelas árvores eternas que teimam em existir na poluição confusa desta cidade, eu não consigo imaginar-te de forma pura, de forma a, através do longo caminho a percorrer pelas vagas ruas da minha mente, poder contemplar o brilho peculiar dos teus olhos quando te rias?
Mas porque será que tenho sempre de te lembrar quando o sofrimento se apoderava de ti, quando criavas raízes naquela cama de hospital que eu subia e descia, que inclinava para trás e para a frente, sempre em busca de um só olhar de alívio e de mínima satisfação da tua parte?
Porque será que só consigo recordar aquele silêncio deveras ensurdecedor que teimava em perfurar-me os tímpanos tal era a sua intensidade? Aqueles corredores de hospital, aquele cheiro moribundo, aquele ambiente austero e agressivo?
Queria ver-te de novo a chamar por mim de lá de fora, do quintal, onde tinhas as tuas sempre queridas plantas, onde brincávamos com o Nico, o nosso cão, onde alimentavas os pássaros, onde a relva era verde e fresca e que agora secou…
Queria discutir contigo.
Queria chatear-me contigo, dizer-te que já tinha tudo estudado e que podia sair naquela noite de sábado.
Queria poder ser mal-educada contigo, refilar e refilar vezes sem conta, para que me deixasses sair até mais tarde.
Queria poder discutir contigo a forma como o nosso mundo era constituído por átomos, e estes por protões, neutrões e electrões, que depois formavam moléculas, através daquelas forças intermoleculares que estudámos, os compostos orgânicos, os equilíbrios ou desequilíbrios…, pois nem tudo era harmonia, mas era, acima de tudo, amor, carinho, ternura, felicidade.
Amo-te, mãe.
Digo-to como nunca to disse. Talvez devesse tê-lo feito, mas tu conheces a minha enorme aversão às lágrimas. Essas mesmas que agora me percorrem o rosto. Mas estou sozinha, não está ninguém a ver-me.
Vou ser feliz em teu nome. Vou viver em teu nome, abraçando-te todos os dias, sentindo o teu aconchegar dos lençóis quando vou dormir.

Um beijo, pleno de tudo o que há-de para sempre ligar-nos.
Um dia hei-de voltar a ver-te, tenho a certeza. Sei que vais esperar por mim.

Rita